Os estudos de recepção na América Latina são muito recentes. Na Argentina,Chile e Brasil coincide com o fim das ditaduras sendo que no Chile o desenvolvimento inicial aconteceu fora das universidades. Sua emergência se dá no início dos nos 80, no bojo de um forte movimento teórico crítico que procurava fazer uma reflexão alternativa sobre a comunicação e a cultura de massas através da perspectiva gramsciana, reflexão alternativa às análises funcionalistas, semióticas e frankfurtianas predominantes até então.
Em quase todos os países as pesquisas de recepção tiveram como cenário original os estudos dos efeitos, tributários da tradição funcionalista norte-americana quase sempre paradoxalmente em consonância com a teoria frankfurtianas, outra tradição vigente nos anos 60 e 70 que marcou o desenvovimento dos estudos de comunicação latino-americanos .
É sobretudo dentro da temática das culturas populares uma teoria complexa, a recepção começou a ser desenvolvida, tendo como exemplos básicos de reflexão o deslocamento dos meios às mediações (Martin Barbero, 1987) e os processos de hibridização cultural (Garcia Canclini, 1990).
É central hoje a presença da perspectiva teórica das mediações e das hibridizações na pesquisa de recepção em toda a América Latina. As pesquisas de recepção no Brasil são denominadas de “teorização atrasada” em relação à reflexão “avançada” que se fazia através da teoria das mediações. Eram teorizações “atrasadas” porque eram marcadas por um forte esquema dualista: ou se privilegiava exclusivamente os modos de reelaboração/resistência/refuncionalização dos conteúdos culturais das classes populares ou se tomava esses conteúdos como completamente moldados pela ação ideológica das classes dominantes, via meios de comunicação de massa. Porém, em pouco mais de 5 anos esse quadro foi superado com a incorporação da perspectiva das mediações às pesquisas brasileiras de recepção.
O que contrasta bastante em relação a esse quadro brasileiro da pesquisa de recepção é a formação em diversos países latino-americanos de equipes de pesquisa trabalhando em projetos integrados e multidisciplinares. É o caso dos projetos sobre telenovela na Colômbia (Martin Barbero e Munhoz, 1992) e no México (Gonzalez,1991), o da recepção ativa no Chile (Fuenzalida, 1987) e o de crianças e televisão no México (Orozco, 1992), entre outros. A idéia central e comum a todos esses projetos é uma rigorosa experimentação metodológica, através da qual tenta-se avançar nos procedimentos propriamente técnicos da investigação empírica, no sentido de torná-los mais compatíveis com a complexidade da teoria das mediações.
Os estudos de recepção são entendidos como “estudos do processo de comunicação, a partir do lugar/momento do encontro de sujeitos-campos de força”. E quanto à área da Comunicação, a Teoria da Recepção é entendida como “o viés de pensamento acerca do lugar/momento relativo ao ato de receber-se, de unir-se, de estabelecimento de um contrato para o encontro de sujeitos, para a comunicação. A Teoria da Recepção trata, então, desse ‘lugar/momento-túnel’ que possibilita o encontro de sujeitos campos de força”.
“Não se trata, então, apenas de dizer que o receptor não é passivo. Tão pouco se trata de alarmar um suposto poder do receptor contra o também suposto poder do emissor. Não se trata de inverter o ‘lugar’ de poder, numa espécie de revanchismo contra os tempos Funcionalistas e dos teóricos da Dependência e da Teoria de Frankfurt. Trata-se, sim, de pensar a Comunicação como encontro de mundos, a partir do lugar/momento onde realmente ocorre a negociação de sentidos.”
Como vimos, a recepção é, antes de qualquer coisa, uma perspectiva de investigação e não uma área de pesquisa sobre mais um dos componentes do processo de comunicação, neste caso, o público. Trata-se de uma tentativa de superação dos impasses a que tem nos levado a investigação fragmentadora e, portanto, redutora do processo de comunicação em áreas autônomas de análise: da produção, da mensagem, do meio e da audiência.
Destacamos aqui a perspectiva integradora e compreensiva do estudo da recepção, uma vez que todo o processo de comunicação é articulado a partir das mediações.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Introdução...


É, sobretudo, dentro da temática das culturas populares que começam a ser desenvolvidos os estudos de recepção dos meios de comunicação a partir de meados de 1980.Diferentes abordagens da recepção encontram-se em discussão, na América Latina, mas refiro-me especialmente àqueles estudos que são influenciados por Martín-Barbero, Orozco e García Canclini. Do meu ponto de vista, os estudos de recepção configuram, até o momento, o principal ponto de desenvolvimento dos estudos culturais latino-americanos, isto é, a problemática empírica que mais tem contribuído para a constituição desse campo de estudos.Devo esclarecer que ao falar em estudos culturais latino-americanos2 refiro-me especificamente a um leque de trabalhos e reflexões que hoje se aglutinam, na América Latina, sob a denominação de estudos de comunicação e cultura. Tais contribuições preocupam-se com a formatação de uma teoria, de uma prática e de uma política da cultura que se identifica, de uma forma ou outra, com a tradição dos estudos culturais que se desenvolveu a partir do Centre for Contemporary Cultural Studies, fundado em Birmingham, em 1964.Em relação aos estudos de recepção latino-americanos, gostaria de observar que eles se detêm na pesquisa empírica da audiência e, em especial, da televisão. Diferentemente do que ocorreu no contexto anglo-americano, esse campo de pesquisa empírica não se deslocou de modo gradual de análises baseadas estritamente nos textos para um enfoque mais contextualista. Na América Latina, a pesquisa em comunicação dos anos 70 e parte dos 80 difundia uma concepção reprodutivista de cultura. Isto não propiciou ambiente para o florescimento de uma visão menos maniqueísta sobre os textos populares, ou seja, os conteúdos das indústrias culturais.
"A cultura era basicamente ideologia. Nesse caso, não existia nenhuma especificidade no âmbito da comunicação. Estudar os processos de comunicação era estudar processos de reprodução. Não existia nenhuma especificidade conceitual nem histórica nos processos de comunicação" (Martín-Barbero, 1995:149).
Entretanto, gostaria de indicar que, em 1978, Martín-Barbero (1978) delineava uma perspectiva de análise que poderia ter sido implementada numa transição entre a análise do texto e a do receptor. Contudo, foi fundamentalmente De los medios a las mediaciones (1987) que realmente fecundou os estudos de recepção latino-americanos numa vertente muito mais contextualista. As teorias dominantes dos anos 70 e início dos 80 fundamentaram análises concentradas no texto, mas não permitiram visualizar a possibilidade de outras leituras das mensagens que não fossem as sugeridas pelos significados dominantes que estruturavam seu sentido. Assim, influenciados sobretudo, num primeiro momento, pela obra seminal de Martín-Barbero (1987), os estudos de recepção, a partir do final dos 80, descobriram e celebraram um sujeito-receptor que ressignificava as mensagens mediáticas, identificando suas negociações e resistências à lógica dos meios.
http://www.uff.br/mestcii/carolina1.htm

segunda-feira, 21 de abril de 2008

 
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